Notícias da Vela

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2 de março de 2011

Relato de um Capitão de outrora...

"Chegado em Sampa na sexta, 11/02, no sábado eu já estava pronto para correr a regata de abertura da COPA ASBAC 2011 no POITA, tendo como timoneiro o experiente Cássio. Agora, o barco contava com um proeiro também experiente, sapiente, com tudo de veleiros na memória, rápido, ágil, concentrado e supereficiente. (Se algum leitor rir sarcasticamente, ficarei enfurecido!)

Preparados (nascemos preparados) com muita água, toneladas de protetor solar, roupa para frio, para calor, para sol e para chuva, partimos motorando e pegamos o MARLIN pelo caminho para rebocá-lo até o clube anfitrião da regata.

Tudo pronto, tripulação a postos, brisa boa, colocamo-nos em muito boa posição e ... começaram as desgraças. O timoneiro solicitou o indispensável (para boa partida) cronômetro e ... ele desapareceu! Timoneiro em desespero! “Pronto! Perdemos a regata”. O fabuloso proeiro logo lembrou onde estaria o tal aparelho: está num saco! Procura saco, esvazia saco, escarafuncha saco e nada de cronômetro. Nesta hora, os outros competidores já estavam alinhados para a partida e ... o vento foi amainando. Todos partiram e nós ficamos, para variar, por último. Prepara balão, sobe genoa e DUAS VELAS RASGADAS ANTES DA PARTIDA NUM MALDITO CABO DE AÇO! O timoneiro achou que estávamos completamente derrotados e ameaçou abandonar a regata. Isto NUNCA fez parte dos nossos dicionários. Permanecemos na regata e em 200 metros de pouco vento, manobrando em busca de rajadas, o proeiro, com pequena ajuda do timoneiro, demonstrando que uma vez rei, sempre majestade, colocou, com sua agilidade e conhecimento de todos os cabos do barco, o POITA novamente no páreo.

Entramos numa bela tarde de sol fortíssimo, vento razoável, biguás voando baixo, linda paisag ... PQP! O diabo do timoneiro estava gritando “ ...cê não avistou/avisou sobre este barco? Mas que ME*&¨%$#*&¨!” Tivemos que pagar 360º, mas foi culpa da paisagem. Só me desconcentrei um pouquinho. Rodeamos uma bela ilha e montamos o balão. Mesmo com a inestimável ajuda do proeiro, o timoneiro quase morreu, tentando fazer tudo sozinho, mesmo contando com a orientação firme do ágil tripulante. Bufou durante uns 30 minutos.

Tanto a genoa quanto o balão rasgados antes da partida, foram habilíssimamente remendados com White tape (silver tape branca). Empopados, mantivemos a vantagem. Olhei para a bochecha de boreste e ...NOSSA! Uma bola preta, cheia de raios pairava sobre Sampa!

Perguntei para o timoneiro se a chuva ali era acompanhada por ventos fortes. “As vezes”, foi a resposta. Baixamos o balão, içamos a genoa, entramos numa navegada boa, mas com a chuva já nos atacando. Coloquei casaco de chuva (se D. Clarice descobrir que peguei chuva, vai tacar fogo no barco!), ajustei a jugular do chapéu e prosseguimos impávidos. A regata deveria terminar às 17:00 h e estávamos em cima da hora. Já com o vento aumentando e a chuva batendo, montamos a última bóia. Ainda cogitamos armar balão, mas desistimos. Olhando para a popa, a chuva já bloqueava a visão a uns 100 metros . Baixamos a genoa com um dispositivo denominado “Alice” (funcionou meia-boca). Estávamos a 50 m da linha de chegada e daí ... DESABOU O MUNDO! Chuvaralhaço, ventos com rajadas de até 80 km/h, cruzeta n´agua mesmo com genoa baixa , água entrando por cima da braçola, (fiquei com água pela cintura, faltando 3 dedos para a Guarapiranga invadir a cabine) , 4 barcos virados um afundado, que ficou apenas com 30 cm de proa na superfície, seis pessoas salvas pelos bombeiros(excelente trabalho), velas em farrapos, danos generalizados , píeres flutuantes arrastados, ondas de mais de metro. Chegar ao píer foi uma façanha. Atracar foi um parto de ouriços trigêmeos paridos ao contrário. Fomos ajudados com o cabo de atracação, Cássio conseguiu pular (eu falei PULAR) no píer balouçante e amarrar o barco. Por pouco tempo. O cabo arrebentou! Um cabo de 8-10 mm! Amarramos outro. Eu, com más lembranças de flutuantes no passado. Permaneci no barco “coordenando os trabalhos“, debaixo da vela grande passada por cima da retranca para fazer uma barraca. Leme batendo no fundo, píer subindo um metro enquanto barco baixava, vice-versa . E eu “coordenando”... Cássio entra n´água e tenta safar o leme. Consegue, mas já com pequenos danos. Horror geral!

Em 20 minutos, talvez menos, o caos passou. Barcos ainda navegando foram chegando, ninguém terminou a regata no horário, fomos “campeões morais” e quase apanhamos, quando o Cássio pediu para eu comentar para os colegas o pequeno cataclisma: “Bueno, tivemos uma cerração com leve brisa.”

Fulvio Lopes, progenitor do autor do Blog....


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